domingo, 25 de novembro de 2007

As galinhas dos ovos de ouro (da ciência brasileira)

Olá pessoal,
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O tema de hoje é uma carta escrita pelo Prof. Paulo Murilo Castro de Oliveira (físico e pesquisador 1A do CNPq), publicada originalmente no Boletim da Sociedade Brasileira de Física (SBF)
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Tenho certeza que quase todos aqui já estiveram em uma roda de discussão sobre o sistema da Capes de avaliar os cursos de pós-graduação (para quem não é "do mundo da pesquisa", a Capes é um órgão do MEC responsável pela pós-graduação no Brasil). Eu já participei de um julgamento nas Ciências Biológicas II e percebi o culto ao fator de impacto (IF) das revistas. Pouco interessa o que as PGs produziram em termos de expandir a fronteira do conhecimento, o que importa é publicar em quantidade, e em revistas de alto IF.
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Isso tem levado muitos pesquisadores a criar “clubes de publicação” (isso já foi discutido no blog, clique aqui), ou mesmo fraudar resultados e/ou plagiar estudos. O sistema de avaliação da Capes induz ao que há de pior em muitas almas fracas (de pesquisadores). Lógico que são minoria. Mas essa é uma situação extrema. O que é pior mesmo - em termos epidemiológicos - é a contínua queda da qualidade dos alunos que formamos. Não temos mais tempo de incutir uma "mente de cientista" em um estudante de PG. O que importa é ele ter seu diploma em até 4 anos (no caso de doutorando), e que publique em revista de alto IF. Uma grande maioria dos artigos que são publicados é na verdade escrita pelos orientadores, desesperados em serem bem avaliados pela Capes.
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O sistema de avaliações da Capes, creio eu, é bem intencionado. Mas tem criado uma legião de Doutores-Mobral que pouco tem a acrescentar para o Brasil (a não ser para ajudar nas estatísticas que a Capes mostra ao mundo - que formamos >10 mil doutores por ano). Quando a nossa geração de pesquisadores se aposentar - em 2o-25 anos - estou prevendo uma queda brutal no número de publicações e teses do Brasil.
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As galinhas dos ovos de ouro somos nós, os pesquisadores sêniors de hoje. Me preocupa se estamos formando a próxima geração. Me preocupa se haverá uma proxima geração.
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Vejam o que já postamos sobre plágio e fraude na ciência, clicando nos ítens a sequir: 1) Corrupção na ciência - na China, 2) Ética e anti-ética na publicação científica, 3) Voce já plagiou hoje?, 4) Fraude na ciência (texto em espanhol), 5) Pesquisador questiona pareceres do CNPq.
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Bem, vamos agora ao texto do Prof. Paulo Murilo de Oliveira ?
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Foi publicada no boletim da SBF em outubro. Como dizia meu finado pai, jornalista, tudo com mais de 24 h é notícia velha! Mas a carta do colega Paulo está MUITO atual. É uma carta longa. E por isso selecionei alguns trechos.
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"(...) Outro aspecto nocivo dessa competição erroneamente induzida pelas agências de fomento é o aparecimento, com freqüência cada vez maior, de práticas condenáveis que vão desde pequenos deslizes até plágios e fraudes. Alguns desses casos têm se tornado públicos ultimamente, devido à posição de seus personagens. (...) Vou citar alguns exemplos (...). O líder de um laboratório permite que seu nome seja incluído como autor de todas as publicações daquele laboratório, porque assim vai haver no grupo um pesquisador nível 1A do CNPq, exigência de vários programas das agências de fomento, exigência esta baseada na mesma estratégia míope de competição."
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"(...)Há também a manipulação do número de professores do curso de pós-graduação, tira-se fulano e inclui-se sicrano no relatório deste ano. No ano seguinte inverte-se. O curso de graduação da instituição é sempre prejudicado. Trabalhos idênticos ou cópias ligeiramente maquiadas de um mesmo autor ou grupo de autores são submetidos e muitas vezes publicados em diferentes revistas (...) Trabalhos inexistentes são colocados na plataforma Lattes, muitas vezes apagados após a avaliação específica do interessado. (...)"
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"Talvez o pior aspecto resultante da estapafúrdia competição induzida pelas agências de fomento seja a péssima formação oferecida à grande parte dos pós-graduandos. Posso dar meu testemunho pessoal como participante de inúmeras bancas de concurso na área de Física das melhores instituições do país. Os candidatos, em geral, apresentam ótimas listas de publicações científicas nas melhores revistas. No entanto fracassam em massa quando lhes são propostas questões básicas sobre conceitos fundamentais que qualquer professor de Física deve necessariamente dominar.(...)"
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Para ler a carta em sua íntegra, clique aqui.
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E então leitor, qual a sua opinião?
Em que podemos contribuir para a melhora da PG no Brasil ?
Vamos deixar morrer a galinha dos ovos de ouro ?

4 comentários:

Anônimo disse...
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Marcelo Hermes disse...
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Recém-PhD disse...

A qualidade dos Recém-doutores está diminuindo assustadoramente e a preocupação com a publicação catalizada pela CAPES-CNPq está contaminando todo o processo de formação de nossos doutores. A maioria é despreparada da Fundamentação Teórica de sua área de atuação e muito específico em uma tema restrito que o leva a diversas publicações. Como professores geralemente são didaticamente uma lástima! São também desprovidos de independência intelectual e muitas vezes buscam o caminho do plágio e da cópia. Estamos formando uma nação de Megalomaníacos pelo a ação publicar. E só! Imagina o que está acontecendo com o pessoal das Engenharias que no Brasil não tinham essa cultura de publicação em periódicos! Isso era coisa de Físico, Químico e Biólogo. Os cientistas. Sem comentários... Esse cenerário também me preocupa muito. Sem dúvida é um excelente tema para um debate saudável entre pessoas que sabem o que é respeito.

Parabéns, por levantar a questão.

Anônimo disse...

Oi Marcelo

Gostei muito do artigo sobre a Galinha dos Ovos de Ouro... Aqui na Inglaterra, pelo menos em meu departamento (que abrigou de Newton, Stokes, Dirac, Taylor e por aí vai, sem falar da universidade como um todo...), eu NUNCA ouvi ninguém falar de fator de impacto de jornal. Aqui, a publicação é uma conseqüência da pesquisa, e não o objetivo da pesquisa. A diferença parece sutil, mas são coisas bem diferentes! O importante para um aluno de doutorado é saber ser cientista, perguntar perguntas corretas, saber o que é ou não interessante para ser pesquisado e etc. O paper, vem depois, e é a última (e apenas mais uma) etapa do ciclo de formação do aluno e que deve ser visto sempre como mais uma etapa (a última, a conseqüência) de um ciclo de pesquisa bem sucedido de um profissional da ciência.

Infelizmente, concordo com sua predição sobre o desempenho da próxima geração (da qual farei parte). Talvez até o número de publicações não caia, porque sempre haverá jornais obscuros querendo publicar alguma coisa, cujas citações podem ser autoalimentados até o limiar mínimo de citações exigidos pelas agências financiadoras pelos tais "clubes de publicação"... O que de fato me preocupa é que expandir a fronteira do conhecimento tenha deixado (ou esteja deixando) de ser o objetivo da pesquisa no nosso país e que novos doutores estejam sendo formados em nossas universidades com esta mentalidade (talvez até vítimas de um crime "culposo" do sistema!)...

Bom, deixa eu voltar para a redação da minha tese!

Um grande abraço,
Yuri

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Yuri D. Sobral
Research Student (PhD)
Y.D.Sobral@damtp.cam.ac.uk
www.damtp.cam.ac.uk/user/yuri

University of Cambridge
Department of Applied Mathematics and Theoretical Physics
United Kingdom

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