sábado, 26 de janeiro de 2008

Micróbios e criacionismo

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Olá leitores
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Depois de postar pela manha sobre o novo journal criacionista (ARJ), resolvi dar uma olhada mais de perto nos artigos lá publicados. Por enquanto são apenas dois. Mas em breve serão muitos mais.
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O que fiquei impressionado é com a qualidade editorial dos artigos. Tem um LOOK de paper sim. Quem vê, sem ler "as letrinhas" (nas palavras de meu filho de 9 anos), acha que se trata sim de um paper científico.
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Pois bem, vamos ver e ler um paper criacionista?
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Gillen, AL (2008) Microbes and the Days of Creation
Answers Research Journal 1: 7–10.
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Clique na imagem acima para ler o resumo do artigo. Para o texto em PDF, clique:
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O que acontece com os artigos citados por Gillen (o autor de "Micróbios e os Dias da Criação")? Estas citações seriam válidas? Se o ARJ entrar para Web of Science, qual será seu fator de impacto (FI)? Se for uma revista com alto FI, será que a Capes irá classifica-la como Qualis A? Estamos diante de uma discussão complexa, no âmago da questão sobre "o que é um paper".
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Vamos a um trecho do artigo? Vejam como o autor começa falando sobre vírus de forma cientificamente adequada. Depois descamba em explicações sobre o antes e depois da expulsão do paraíso (Fall, em inglês). Assim, ele classifica os vírus como sendo "do bem" ou "do mal".
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Where Do Viruses Fit into Creation?
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The determination of virus origin is uncertain.
It may be that viruses (as we classify them today)
have multiple origins. Some may be degenerate parts
from cells after the Curse; still others may have their
origin during the days of creation. Today, we think
of viruses (Latin for “poison”) only in the context of
disease. However, some viruses (or at least virus-like
genes) are involved in a positive function in nature.
Some groups of viruses, like bacteriophages, play a
positive role in controlling bacteria in ecosystems and
may play a role in diversity. Another group of viruses
play a role in turning off the immune system during
pregnancy in mammals and humans (Liu 2007).
This is a group referred to as endogenous retroviruses
(ERVs). ERVs are among a kind of repetitious genetic
elements called “retrotransposons”.
.......Research has shown that the ERV design prohibits
the mother’s immune system from damaging
the child’s body. These retroviruses cannot fully
replicate, only expressed in local immune cells (such
as macrophages) of the placenta, thereby preventing
them from initiating a full-blown immune response
(Gillen and Sherwin 2005; Liu 2007). Thus, the
mother’s immune system remains competent
to respond to other infections but is specifically
prevented from mounting an immune response to
the developing embryo (Gillen and Sherwin 2005;
Liu 2007). So in creation, the selective ability to
turn off the immune system for protection would be
a “good” design. Other ERVs also play a positive role
in animal and human reproduction. However, since
the corruption of creation, the corrupted retrovirus,
HIV, and various leukemia viruses turn off the entire
immune system, leaving the body open to devastating
infections. These examples may provide clues to the
origin of viruses and how some may have been created
during Creation Week by design and how some have
been corrupted as a result of the Fall.
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Perceberam a pseudo-ciência se travestindo de ciência? Precisamos ter muito cuidado com as aparências. Vovó já dizia: "Marcelinho, aparências enganam, todo cuidado é pouco".
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Comentários?
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Um artigo como esse seria "bad science" (ciência ruim, nada mais), "bogus science" (ciência de mentirinha, a pseudo-ciência), "de religião", ou alguma outra classificação que não imaginei? Qual sua opinião?

3 comentários:

Marcelo disse...

Mas... é ciência?
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(Folha de SP, Caderno Mais, 27/01/2008)

Para biólogo, declarações de ministra a favor do criacionismo mostram que cientistas brasileiros não podem mais ignorar o debate sobre limitações dessa pseudociência

SANDRO DE SOUZA
ESPECIAL PARA A FOLHA

No prólogo do seu livro "But is it Science?" ("Mas é Ciência?"), o filósofo Michael Ruse descreve sua experiência como testemunha no processo movido pela ONG "American Civil Libertation Union" contra o Ato 590, instituído pelo Estado do Arkansas, nos EUA, em 1981, que obrigava o ensino do criacionismo nas escolas estaduais de ensino básico.

O objetivo principal desse ato era contrapor o criacionismo ao evolucionismo, a teoria de evolução das espécies desenvolvida por Charles Darwin e Alfred Wallace em meados do século 19. O testemunho do filósofo foi crucial na sentença do juiz William Overton que, ao dar ganho de causa à ONG, argumentou que o criacionismo não é uma ciência genuína.

As recentes declarações da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, defendendo a exposição de alunos brasileiros às duas visões (criacionista e evolucionista) trouxeram o debate novamente à tona no país.

O movimento criacionista brasileiro vem se organizando de forma efetiva. Organizações como a Sociedade Criacionista Brasileira (www.scb.org.br) e a Sociedade Origem e Destino (www.origemedestino.org.br) existem há décadas. Antes da ministra, outras figuras públicas (o casal Garotinho) já haviam agido no sentido de inserir o criacionismo nos currículos escolares do Brasil.

Nos EUA, o debate criacionismo X evolucionismo ocupa espaço significativo na imprensa há quase um século. Em 1925, por exemplo, o Estado do Tennessee condenou o professor de ginásio John Scopes por incluir a evolução em suas aulas de biologia. Só no final dos anos 1960, a Suprema Corte americana declarou constitucional o ensino de evolução.

A interpretação dos juízes americanos de que o ensino do criacionismo fere a Primeira Emenda da Constituição americana, que dissocia a "igreja" do "Estado", fez com que os criacionistas americanos tentassem caracterizar o criacionismo como uma teoria científica, um contraponto à teoria da evolução. O ponto principal reside, então na seguinte pergunta: podemos caracterizar o criacionismo como ciência?

Há dois componentes conceituais importantes na definição de ciência. Qualquer hipótese ou teoria científica precisa estar baseada em evidências.

Além disso, uma hipótese ou teoria científica deve ter uma capacidade preditiva. Tais predições devem ser então investigadas e testadas por meio de experimentos cuidadosamente desenhados e controlados. É o famoso método científico, que vem sendo usado sistematicamente nos últimos 150 anos para corroborar a teoria da evolução de Darwin.

Por outro lado, se avaliarmos a literatura criacionista dita "científica", veremos que não há nenhuma evidência do processo de investigação mencionado acima. A quase totalidade dessa literatura representa ataques à teoria da evolução e nenhuma evidência positiva a favor do criacionismo. A vedete atual dos criacionistas é o que chamamos de "design inteligente". Suponha que você nunca tenha visto um relógio e repentinamente se depare com um Rolex. A sua primeira impressão é que aquela peça não deve ser um produto do acaso, visto a sua complexidade e seu grau de organização. Ele tem um "design" e, conseqüentemente, um "designer" (criador). Segundo os criacionistas, tal lógica deveria ser aplicada também a animais e plantas, cuja complexidade é inquestionável. Na opinião dos criacionistas, o "design inteligente" seria científico e como tal deveria ser ensinado nas escolas.

Assim como nos EUA, é evidente no Brasil que muito do movimento criacionista está centrado em uma agenda conservadora defendida por grupos de cunho fundamentalista.

Esse movimento conservador é politicamente mais forte nos EUA, daí a intensidade dos debates nas últimas décadas.

Responsabilidade
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Apesar de esses grupos estarem se fortalecendo politicamente no Brasil, principalmente representados pelos evangélicos, sua influência também deve ser creditada ao vácuo gerado pela falta de um debate consistente sobre as limitações do criacionismo como ciência, cuja iniciativa deveria partir da comunidade científica brasileira. Assumir esta responsabilidade é particularmente crítico em um país como o Brasil, onde algo como o debate criacionismo X evolucionismo pode ser visto como supérfluo em face aos outros problemas no nosso sistema educacional.

Em resumo, espera-se que um currículo de ciências forneça o que há de mais correto no nosso entendimento da natureza. Esse processo passa única e exclusivamente pela adoção dos princípios científicos que vêm norteando a aquisição de conhecimento pela humanidade há séculos. Até o presente momento, tais princípios estão em conflito com a base do movimento criacionista.

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SANDRO DE SOUZA , 39, é PhD em bioquímica pela USP e chefe do Laboratório de Biologia Computacional do Instituto Ludwig de Pesquisa sobre o Câncer, em São Paulo

Fonte:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe2701200804.htm
(somente para assinantes)

Anônimo disse...

Eu dou força para todo mundo que tenha saco, escrever um artigo pseudo-criacionista para esta revista. Sob algum pseudônimo engraçadinho para quem entende português. Vamos inundar esta revista e ver como é que funciona o peer-review deles!!

MaxAug disse...

Olha só que interessante a honestidade dos ateus... Tentando sabotar o trabalho alheio com mentiras.

Nem se preocupe, outro ateu dissimulado já fez isso (e falhou) antes de você:

http://www.answersingenesis.org/articles/2008/05/14/caught-in-the-act

No mais, o autor do blog comentar acerca de o periódico Criacionista ser aceito em meio aos seculares, cujas premissas são incompatíveis, só demonstra que ele está no jardim de infância epistêmico acerca da natureza dessa disputa.