quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Liberdade acadêmica sob ataque - na Suécia

Oi pessoal,
Vejam o que saiu esta semana na Nature News. Pesquisadores suecos publicam um paper na área de linguística forense chamando um determinado software de detecção de vozes (um tipo de detector de mentiras) de ser uma farsa. A empresa (de Israel) que produz o software ameaça processar a revista que publicou o artigo. Esta, por sua vez, remove o paper de seu website.
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O grande problema aqui não é um ataque a liberdade acadêmica, mas uma defesa da honra. Os pesquisadores disseram que o produto era uma fraude deliberada. Poderiam ter dito que o software não presta, que é uma porcaria. Mas, ao meu ver, passaram dos limites.
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Agora a estória pode virar um circo de debates dos defensores das "liberdades" versus advogados "malvados". Eu, por exemplo, não canso de dizer que a Admistração Central da UnB é incompetente, esquerdista e perdulária. Mas não os chamo de mentirosos ou coisas do gênero.
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Vamos ver o que saiu na Nature News ?
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Swedish authorities embroiled in furore over academic freedom
Journal removes paper from website after company threatens legal action.
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By Natasha Gilbert
Published 16 February 2009
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The Swedish Research Council is wading into an escalating row over academic freedom after a peer-reviewed journal removed a published paper — penned by two Swedish academics — from its website following a threat of legal action from the company whose technology the research criticized.
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The controversial paper, entitled Charlatanry in forensic speech science: a problem to be taken seriously (ver aqui o paper), was first published in the International Journal of Speech, Language and the Law in December 2007. In it, speech scientists Francisco Lacerda of Stockholm University and Anders Eriksson of the University of Gothenburg, Sweden, criticize different voice-analysis technologies. In particular, the two authors say that there is no scientific basis behind the claims made for the Layered Voice Analysis technology developed by Nemesysco Limited, a company based in Natania, Israel.
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On 3 November 2008, the company's lawyers wrote to the journal's publisher Equinox Publishing, based in London, complaining about the paper. The letter said that Amir Liberman, the founder and chief executive of Nemesysco, was considering issuing a claim for defamation, and requested that the publisher retract the article.
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The article was pulled from the journal's website within a week and replaced with a note explaining the journal's decision to remove it. But now, the Swedish Research Council, a government agency, is making moves to back up Lacerda and Eriksson. Four out of seven key leaders at the research council have so far signed a statement expressing concern over the retraction of the article from the journal's website.
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Freedom fight?
A draft of the statement seen by Nature News says: "Freedom of research would be in great danger if companies and organizations that are not satisfied with the content of scientific articles could get them removed through threats of court action." It adds that the research council considers it to be of the "utmost importance" that the research community demonstrates that it will "not tolerate any attempt to put a lid on the scientific debate".
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The paper's authors say they are disappointed the journal "bowed down" to the threat of legal action. "This is an infringement on academic freedom," Eriksson told Nature News.
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But Liberman says he "did not object to the publication of a paper that says the technology does not work", but rather that the authors suggest in the paper that he is a "charlatan" by commercializing technology that he knows does not work. "If you are going to call me a liar, you have to be prepared to prove this in court," he says.
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On the research council's move, Liberman says "The freedom to research is not a license to slander. It must come with a sense of responsibility, should be addressed in a professional manner and with a minimal respect to the tested topic." (...)
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Leia a estória completa clicando aqui.
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Não deixem de ler os comentários à reportagem da Nature.

6 comentários:

Ciência Brasil disse...

Um comentário postado na Nature News:

Posted by: Richard Dawson

I have not read Eriksson and Lacerda's paper, but even if nowhere in the paper is it claimed that Mr. Liberman is a liar, as Francisco Larcerda states, the title of the paper is 'Charlatanry in forensic speech science: a problem to be taken seriously'. I am not sure if 'Charlatanry' is an English word but a charlatan is a swindler and a con - a person who deliberately lies and decieves, lending credence to the claim of Mr Liberman that he has been called one. Maybe Eriksson and Lacerda should rewrite their paper writing about the science and the facts and leave the readers to make their own judgements, if any are necessary about Mr Liberman's credibility.

Ciência Brasil disse...

Outro comentário, do mesmo Richard Dawson

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Having read the abstract of the paper, Eriksson and Lacerda merely say that "...the absence of scientific support for the underlying principles it is justified to view the use of these machines as charlatanry and we argue that there are serious ethical and security reasons to demand that responsible authorities and institutions should not get involved in such practices." Now that sounds reasonable and does not amount to calling Mr Liberman a liar. Under the circumstances and assuming that they have made no such allegation in their main paper, this does seem like an unwarranted attack on academic freedom.

Ciência Brasil disse...

Comentário de Ulrich Berger (postado ontem)

As a scientist who actively tries to fight against pseudosciences I applaud the auhtors for their courage. Despite a note to the contrary the full-text of the article can still be read and printed here: http://www.scribd.com/doc/9673590/Eriksson-Lacerda-2007. A scan can be downloaded from Wikileaks: http://wikileaks.org/leak/lacerda-lie-detectors-2007.pdf

José Guilherme Chaui-Berlinck disse...

Caro Marcelo,
Acho que você está fazendo uma confusão entre o fato dos autores chamarem o Sr. Liberman de charlatão e controvérsias científicas e/ou acadêmico-políticas. Em um instante, sou capaz de pensar quatro nomes de cientistas que eu chamaria de mentirosos pois, mesmo tendo sido apontados erros metodológicos/analíticos em suas publicações, essas pessoas se mantém inabaláveis em suas linhas de raciocínio (ou qualquer coisa que o valha), e continuam a receber as benesses indevidas. Logo, são mentirosos pois sabem que, cientificamente, não estão falando a verdade. Eu, porém, não os chamaria de charlatões, uma vez que o charlatão é aquele “com pretensões, comumente espalhafatosas, de conhecimentos e habilidades; impostor” (Michaelis), o que não se enquadra no caso.
Por outro lado, o que os autores do artigo fazem referência é ao fato de que a publicidade do software inclui a alusão da aplicação da ciência matemática de algoritmos ao produto desenvolvido pelo Sr. Liberman, como se tal aplicação fosse oriunda de um profundo conhecimento de tal ciência pelo referido empresário. Entretanto, tal personagem sequer tem formação universitária (ou produção científica na área) para justificar a alusão feita. Logo, charlatanismo, exatamente como propõe o título do artigo.
Assim, discordo que os autores cruzaram qualquer linha, como você sugere. Mais ainda, se você notar bem, a grande preocupação deles é a destinação indevida do dinheiro público, a qual penso ser sua também.
Abraços,
José Guilherme Chaui-Berlinck
Fisiologia – IB/USP

Ciência Brasil disse...

José
Acho que vc dividiu nosso debate em duas frentes. 1) se ocorreu um ataque a honra dos donos do soft, e 2) sobre a destinação de recursos públicos.

Vou falar agora do tema 1. Como colocou o comentarista acima , Richard Dawson, o ataque se deu ao acusar os donos de soft de charlatões. Charlatão é o mesmo que mentiroso.

Eu acho SIM que o soft tem toda a pinta de ser meio picareta. Mas naõ seria mais simples acusar os donos do soft de incompetentes ?

Ai a discussão ficaria no ambito da ciencia e tenologia, saindo da questão moral.

volto mais tarde !

Paulo Rená da Silva Santarém disse...

Ué, Marcelo, me diga você se o mais importante ou correto realmente é o mais "simples"?

Se eles entendem que há charlatanismo, que publiquem sua opinião. E que tenham a possibilidade de ter os créditos ou os ônus por isso. Agora retirar do ar uma opinião quanto à lisura de um software, eu acho bastante problemático.

Vai que o software é mesmo bom? OS caras são descreditados e ficam com suas pesquisas sujas, e o que mais for o caso, dano moral, sei lá; se é mesmo uma bomba, perde o dono do programa. Agora não dá é pra fingir que não tem problema nenhum e jogar pra debaixo do tapete. Sò porque é mais simples?!