sábado, 1 de maio de 2010

O valor e o respeito ao professor

Oi pessoal,
Recebi o email abaixo para ser publicado. Quem me escreveu foi o Prof Juan Verdésio (UnB), colaborador de longa data deste blog.
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Marcelo
Gostei muito do posicionamento do Prof Flávio Botelho, presidente da Adunb, frente a possibilidade quase certa de que a greve descambe para uma derrota fragorosa e a perda da URP, se não total, pelo menos parcial. [ver o texto do Flávio clicando aqui ]

Um tempo atrás escrevi o texto [abaixo] mas não divulguei porque achei que não serviria para nada na atual cojuntura. O texto expressa o que eu sinto mesmo. Me sinto massa de manobra e nada mais. Coisas fundamentais como a autonomia universitária e a capacidade da Universidade poder determinar quanto ganham e que carreira deveriam ter os seus funcionários, da mesma forma que o faz o Poder Judiciário ou o Legislativo.

Outro assunto que, algum dia será inadiável a sua discussão é o de que a universidade estatal não deveria ser completamente gratuita. Um modelo “a la chilena” é mais do que urgente. Tudo mudaria: teríamos alunos das classes altas realmente querendo estudar porque pagam e alunos pobres com talento querendo estudar e podendo porque terão Bolsas. A universidade estatal por ser um ensino de elites não universal como tem que ser o ensino básico e fundamental tem que ser mudada para ser paga por quem puder pagar.

Os comentários que escutei de nossos alunos que foram para o Chile pelo Programa MARCA me ajudaram no convencimento de que é o caminho que deveríamos trilhar. Sem o Pinochet no meio, claro!!!

Eles falaram que se surpreenderam com os meios disponíveis e o que mais os surpreendeu foi com que orgulho os colegas agrônomos chilenos se referiam a sua universidade, como eles gostavam dela, que a consideravam excelente e assim por diante. Eu gosto muito da nossa UnB, tenho orgulho dela, apesar dos problemas e defeitos. Mas não vejo isto nos meus alunos. Temos que mudar para que eles comecem a ter orgulho e ate, algum dia se consiga fazer o que se faz no países saxones. Os ex-alunos contribuindo financeiramente para que ela continue a ser boa.

Será sonhar muito?

PROFESSOR MERECE RESPEITO

Quando era criança as profissões que mais respeitávamos e que tinham a aura de serem as melhores pagas e as mais dignas, eram a da professora ou professor de escola, e a do médico. Nos vilarejos do meio rural ainda era muito importante e respeitado o delegado de Polícia e nas cidades os membros das Forças Armadas mais pelo temor que inspira o uniforme do que por respeito a figura da pessoa que o encarnava. Ou seja as funções do Estado: Educação, saúde e segurança eram as mais respeitadas. Hoje parece que isto não é bem assim.

Na minha família a profissão de professor sempre foi encarada com paixão e respeito. Tive tios e tias que começaram dando aulas em periferias e chegaram a altos escalões como diretores de escolas e fiscais de ensino. Tem até um que chegou a dirigir o ensino de primeiro grau e até instaurar, nos anos 30, o ensino diferenciado para deficientes e superdotados. Tenho primas e primos que cuidaram e cuidam dos menores abandonados, de surdo e mudos, de deficientes mentais, etc.

Estou falando da realidade dos anos 50 a 70 do século XX no pequeno país onde nasci, o Uruguay. Este país foi o primeiro do mundo a estabelecer por lei o ensino público, gratuito e laico em 1875 que se tornou universal aos poucos. É o único pais da America latina que erradicou o analfabetismo, que tem um índice de percepção da corrupção similar ao da França e que hoje todos os alunos e professores do ensino de primeiro grau tem um minicomputador cedido pelo Estado. Os níveis de leitura, de presença em espetáculos teatrais e musicais e museus é dos mais altos do mundo. Tem ate um músico que ganhou um Oscar.

Para aqueles que apregoam que a educação é a solução de todos os problemas vale ressaltar que este mesmo pais, com estes indicadores invejáveis, não consegue dar emprego aos seus jovens. Mora no exterior quase um sexto dos que nasceram nesta nação. Um sistema educativo sólido, com professores bem pagos e respeitados é parte da solução do problema mais geral que é o desenvolvimento de um pais. Sem educação sólida de nada adianta ter um sistema bancário maravilhoso nem ter uma das maiores empresas energéticas do mundo, como temos no Brasil. O mesmo vale para o Uruguay: sem uma economia dinâmica e inovante de nada adianta ter uma imagem de paz, cultura e educação avançadas.

Sempre tive muito orgulho da minha família e por isso mesmo achei empolgante entrar para a Universidade pública em 1989 depois de ter adotado o Brasil como a minha pátria de coração.

A greve que se deflagrou na UnB originou-se pela possibilidade de perda de uma gratificação ou correção monetária chamada URP, os termos variam. Ela é paga há 20 anos por decisão judicial e a coragem dos reitores anteriores ao atual que fizeram valer a autonomia tão apregoada e pouco exercida. A URP representa mais de 26 % do nosso contracheque. É uma situação que poderia ser a de um romance surrealista ou do realismo fantástico latino-americano.

Como professor não quero saber de discussões entre advogados.
Eu gostaria de saber se eu tenho uma função que a sociedade respeite.

Porque, no mesmo nível de carreira, recebo menos salário do que um membro da policia civil do DF, ou da Polícia Federal ou da Rodoviária Federal ou do Judiciário. Ou mesmo do Tribunal de Contas que decidiu que devemos ganhar menos?

Quanto ganha um engenheiro da PETROBRAS ou um executivo de Banco estatal? Nós professores temos uma função menos importante do que as que mencionei antes? Ou será que o critério é o de que eles devem estar blindados ás tentações da corrupção? E esse o critério para receber menos do que os funcionários que mencionei antes?

O meu trabalho é menos “valioso” ou menos importante socialmente, ou ele exige menos preparo em anos e anos de estudo? Porque não existe um Plano de carreira para o docente universitário?
Os docentes de instituições privadas de ensino superior recebem uns 30 reais por hora aula, dando 40 horas por semana de aula para ter uma salário que nem chega a se equivaler ao do ensino público.

Quanto vale o trabalho de um professor?

É uma função mais ou menos importante do que outras tão nobres quanto a nossa?

Por enquanto eu estou me sentindo como um nobre e digno palhaço de circo dos bons, fazendo rir a muitos, inclusive os meus estudantes, nas mãos do diretor do circo autoritário e alienado. Além do mais, os que contribuem repassando ou controlando os recursos para a manutenção do circo parece que estão surtando.

Prof. Juan José Verdesio
Universidade de Brasília
verdesio@unb.br

8 comentários:

Luís disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Anônimo disse...

Ao MHL: liberar esse comentário acima, em relacão ao professor, foi irresponsável - e lembre-se que a responsabilidade sobre comentários nesse blog é somente sua.

Como você se sentiria caso outros professores fizessem blogs onde a secão de comentários fosse direcionada a analisar a qualidade da sua aula?

Não que eu saiba qual o nível de suas aulas. O ponto é que não é muito ético por parte de um professor abrir espaco para críticas sobre as aulas de outro professor. Os alunos que o queiram, podem faze-lo em seus próprios blogs.

Anônimo disse...

Emblematico que um post sobre respeito aos professores comece com um comentario descendo a lenha no professor que o escreveu.

Isso que dah se imiscuir com esse blog, onde respeito inexiste.

Ciência Brasil disse...

Calma pessoal ! Foi um engano aceitar aquele comentários. Nos ultimos dias o blog tem recebido centenas de comentários (em outros posts), e temos que ler, um a um, com muito cuidado. Eu achei que a pessoa que tinha colocado o comentario tinha se identificado, mas so depois vi que o nome não o fez.

Obrigado pelo alerta. Eu gosto muito do Prof Juan nao gostaria de prejudica-lo com comentários anonimos idiotas.

O tal comentário foi devidamente deletado.

Anônimo disse...

Caro professor Juan,

Sou auditor do TCU E aluno da graduação da UNB. Se seu trabalho é mais "socialmente valioso" que o meu, como vc talvez tenha dado a entender, eu não sei.

Sei que vc NÃO deveria estar ganhando "URP", como já reconheceram o TCU e a Justiça. Eles não "decidem" nada. Quem decidiu foi a LEI.

Abraço.
Leonardo

Anônimo disse...

Um orangotango pode fazer o seu trabalho, caro anônimo acima...
E se a justiça já tivesse reconhecido a ilegalidade da urp, não haveria espera por uma decisão do STF.

Juan José Verdesio disse...

Caro anonimo "auditor do TCU:

Primeiro perque não assina com nome e sobrenome? Tem medo de que? tem medo de ses auditoriado? Eu não tenho, não faço nada ilegal nem escondido nem abertamente. No caso da URP quem fez, se fez, ilegalidades foram autoridades acima da minha.

Segundo: uu não discuti se a URP é legal ou ilegal. FAlei que não me interesam discusões entre advogados. O que eu discuti é que, fazendo uma discusão sobre legalidades ou ilegalidades se perde o rumo e ão se discute o essencial: qual é o valore, representado em salários dignos das funções que são típicas do Estado e que são estratégicas para qualquer país. Me retsringi na educação, saúde, e segurança. Posso incluir as de fiscalização que seriam muito irrelevantes se não tivessemos o emaranhado de leis e até da mesma Constituição. A maior do mundomprovavelmente em número de caracteres e a que mais é emendada. provavelmente tamb´m no mundo inteiro.

Se não tivessemos este labirinto legal e se a corrupção fosse um fenómeno raro a sua função de auditor do TCU deixaria praticamente de existir. Por isso não a considero estratégica para um País serio.

É necessária mas não e estratégica. Pode quase acabar ou se limitar a algumas pessoas se algum dia a corrupção fose mais limitada já que corrupção zero não existe em nenhum lugar do mundo.

Não se ofenda. Não concordo com o outro anónimo que diz que um orangotano faria o memso. Para ter o seu cargo deveria ter o dom da palavra e da escrita e conhecer ou ter meios para poder consultar todo o emaranhado legal existente. Se o cara sabe ler a LEI e ve que a LEI não se cumpre da um parecer de auditor maravilhoso. Ou seja um bom leitor, com um bom computador com todas as leis em linha que saiba escrever um texto minimamente legível ou seja alguém com o ensino de primeiro e segundo grau completos e de boa qualidade poderia exercer a função de auditor do TCU. Porque esse auditor tem que ganhar duas ou 3 vezes o que ganha um professor universitário? me explica.

Anônimo disse...

Não vou me identificar porque, como falei, sou aluno da graduação.
Se meu comentário REALMENTE ofendeu alguém, o que não deve ter ocorrido, o professor responsável pelo blog me localiza por IP depois da queixa-crime.

Os professores não são culpados pela irregularidade constatada em seus contracheques. Nem recebem remuneração adequada. MAS isso não é culpa do TCU, e sim do MEC. E não se resolve com gambiarra jurídica.

Quanto à qualificação necessária, realmente "um bom leitor" pode exercer nosso cargo. Tanto que o cargo é aberto a qualquer nível superior. Basta ser aprovado no concurso.

Os colegas de ciência política, economia e administração pública podem explicar porque auditores ganham relativamente bem, enquanto professores universitários ganham mal, principalmente em termos de Brasília.

Certeza não é o TCU que assim o determina.

E, mais importante, legalidade não é uma negligenciável "discussão de advogados".

Att.
Leonardo.